quinta-feira, 8 de março de 2012

MISS IMPERFEITA ( Martha Medeiros)


"Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.

Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão, e ainda faço escova toda semana - ah,e as unhas!

E, entre uma coisa e outra, leio livros. Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic. Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres. Primeiro: a dizer NÃO. Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás. Existe a Coca Zero,o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero!

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros. Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.

Você não é Nossa Senhora. Você é, humildemente, uma mulher. E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo. Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias. Cinco dias! Tempo para uma massagem. Tempo para ver a novela. Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza. Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto. Tempo para conhecer outras pessoas. Voltar a estudar. Para engravidar. Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir. Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.

Existir, a que será que se destina? Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra."

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Até o próximo inverno da alma.

São 01h23min da madrugada. Acordo de rompante no meio da noite. De súbito levanto, numa necessidade louca de expelir algumas palavras. Minha cabeça tá misturada de coisas. Penso no trabalho, nas possibilidades, penso nas pessoas, nas escolhas. Penso no meu pequeno Arthur, nas nossas brigas e discordâncias. Penso que ele ainda é uma criança. Penso no feriado, no fim de semana e nas férias da alma que nunca chegam. Penso no passado, nas coisas que me amoleciam e me movimentava. Penso no ciclo detestável, porém necessário do mês de Agosto. Penso nas palavras de amor não ditas, nos hinos de amor não ouvidos, nas histórias não repartidas. Penso na dança, no teatro, na poesia. Penso em Manuel de Barros e tenho vontade de virar borboleta.

Já passei por tantas metamorfoses, mas não basta. Agosto é sempre tempo de recolher no casulo. Ainda bem, que vem chegando setembro. Minhas asas estão apertadas na frieza do mês. Vontade louca de voar!

Talvez seja um delírio ou um excesso de lucidez. Impressionante como encaramos a realidade após certa idade. As coisas não se disfarçam mais, se apresentam como e tais são sem piedade ou mediocridade. Só não enxerga quem não tem olhos na alma. Mas, o problema são asas! A gente fica esperando elas crescerem, para depois voar. Esquecemos: as asas são sempre curtas demais e os vôos são altos e longos para quem não tem medo de voar.

Aliás, esperar é sempre um fato tão concreto na vida da gente! Até “Godot” a gente espera. Espera, espera... Mas eu sou tão imprudente! A espera me acorda na esfera da manhã. Tomo tombos, às vezes não sei esperar. Outras, me perco na espera da espera, esperando por um resgate. Nunca chega. Só eu posso romper o casulo, do ciclo, do mês de agosto, dos invernos da vida e instaurar a primavera. Que quando ela chegar, eu esteja pronta, ou quase pronta com minhas antenas. Que minhas asas tenham cores vivas e calorosas. Que eu atraia o amor, a doçura e o perfume. Que eu esteja pronta para voar mais um vez, em direção ao sol, até o próximo inverno da alma.

domingo, 1 de maio de 2011

Entre a vontade e a realidade: um conto de Natal

Joãozinho, desde que nasceu, sempre ganhou presentes no Natal. Sabia do bom velhinho Noel e, por isso, sempre nas noites de natal ia dormir cedo e com a ansiedade de acordar no outro dia ao raiar do sol para abrir os presentes. Quando estava já com seus 8 ou 9 anos, Joãozinho ficou muito curioso com tudo aquilo e, na noite de natal, resolveu levantar-se da cama para ir até a árvore. Chegando lá, ficou pasmo com o que via: seu pai colocava os presentes na árvore! Diante do que viu, Joãozinho entristeceu-se por demais. Principalmente porque, no dia seguinte, viu que o embrulho que seu pai carregava na madrugada anterior, era justamente no qual estava o presente que ele tinha pedido na carta ao papai Noel. A partir daí, mesmo com toda vontade que Joãozinho tinha em acreditar em papai Noel, isto já não era possível mais. Seus olhos não haviam lhe enganado e ele não estava sonhando. Estava plenamente consciente de ter visto o que viu. Com isso, apesar de desejar que fosse o contrário, que tudo aquilo fosse mentira, a realidade era mais persuasiva. Então, diante da impossibilidade de mentir para si mesmo, Joãozinho, infelizmente concluiu: Papai Noel não existe!

Moral da história: para crermos em certas coisas é necessário mais do que vontade. Não cremos naquilo que queremos ou escolhemos, mas sim naquilo que consideramos verdadeiro.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sessão de descarrego

Assuntos polêmicos sempre foram os meus preferidos. Mas para variar, não vou desta vez descer a ripa no Papa ou na Bíblia, nem no Estado ou no capitalismo.
Como acho que estou precisando de algo novo, dedicarei algumas linhas a fazer observações sobre o espiritismo.
Há tempos atrás já fiz uma ressalva sobre esse “mix religioso” que acontece no Brasil. Catolicismo e Espiritismo se enamoram por aqui como se fossem irmãos - embora, na verdade, as doutrinas se excluam. (Leia aqui: Dando pitaco no assunto do momento).
Como também não quero mais fazer simples comparações entre o improvável e o surreal, introdutoriamente, para evitar repulsas frenéticas, farei uma pontuação sobre essas discussões que abordam a fé de forma, digamos, mais dura e realista. Então vamos lá, sem mais cerimônias...
Sei que para a maioria das pessoas “fé não se discute”, ou como diria uma amiga minha, “contra a fé não há argumentos”. Digo a estes que, se assim for, não podemos questionar os homens-bombas, nem os radicais islâmicos, nem rituais satânicos ou as circuncisões femininas feitas para que as mulheres não sintam prazer. O mesmo vale para açoites, apedrejamentos de adúlteros em praça pública e até mesmo a exploração da fé feita por algumas igrejas, nas quais os fiéis são impelidos a doar boas quantias em dinheiro, sob pena de irem para o inferno. Tudo isso é fruto da fé, logo, para muitos, seriam fatos indiscutíveis. Mas não para mim. Parto do princípio de que tudo deve ser permitido e lícito, desde que não invada a privacidade e nem traga prejuízos a outrem, sejam estes prejuízos materiais ou psicológicos. É sob este prima que se funda a liberdade e a moral moderna e é nele que me apoio. Neste sentido, digo que não é legítimo dar pedradas nos outros, nem mutilar, nem extorquir dinheiro alheio, nem amarrar bombas ao corpo e se atirar na multidão. Receio que ninguém que é vítima das doutrinas religiosas ignorantes queira isso. Não imagino que uma jovem adolescente que escape de uma circuncisão, depois de algum tempo se arrependa e vá ao cirurgião pedir que lhe arranque o clitóris. A dignidade humana existe concomitantemente com o sofrimento humano. Eles fazem parte de nós independentemente da fé, raça, crença ou situação econômica.
Concluindo, digo que, se podemos discutir e criticar partidos políticos, times de futebol, certos comportamentos, filmes e músicas, podemos também discutir e criticar a fé. Não há porque se calar diante dela. A fé é passível de críticas como tudo nesse mundo, principalmente quando ela traz resultados deploráveis, sofríveis ou negativos à raça humana como um todo.
Não diria que o espiritismo se encaixa em tudo explicitado acima, mas afirmo que, se ele defende idéias racistas, injustas e que estagnam as pessoas, tenho o direito de criticá-lo a partir do meu ponto de vista.
Inicio com a pior conclusão trazida pelo fenômeno espírita da reencarnação, que é a de que Deus é racista por privilegiar evidentemente certo biótipo humano. Para os espíritas, a reencarnação segue um critério similar a uma “promoção”. É simples: se você vive cometendo ações ruins, você sofrerá na próxima vida. Do contrário, se foi uma pessoa boa, na próxima vida desfrutará da felicidade e dos prazeres mundanos. Sendo assim, não há como concluir que os povos da Somália, Angola ou da Favela da Rocinha estão pagando os erros de vidas passadas. Por outro lado, obviamente, Suecos e Noruegueses foram “promovidos”. Chega a ser inacreditável, mas ouvi da boca de uma mulher espírita que “a raça negra é uma raça menos evoluída” e que “boa parte deles são reencarnações os soldados romanos”. Daí a explicação para tamanho sofrimento no Haiti, na África e nas favelas. Pessoa boa nasce branquinha, pessoa má nasce negrinha e no gueto!
Com essa lógica da “promoção”, o espírita dá explicações a tudo. Todas as desgraças estão relacionadas a suas atitudes na vida passada. Isso acontece mesmo que você não saiba nada do que fez na tal vida passada! Muito justo, não acham? Ou seja, você paga por aquilo que desconhece ter feito. É como se te jogassem na cadeia e não lhe dissessem por qual crime (acho impressionante como tanta gente, até mesmo católicos, absorvem essa explicação bizarra para o sofrimento humano).
Quer pior? Isso é imutável, pois está nos planos divinos! Você está sofrendo e nasceu para aquilo. É seu destino, ou se preferir, seu "karma"! Sua alma já entrou no corpo do bebê que sua mãe carregava (e que viria a ser você) programado para viver tudo isso - tudo para que você evolua, para o seu bem!
Nesta perspectiva, o tão aclamado “livre-arbítrio” dos católicos virou pó, pois não há como fugir dos propósitos terrenos preparados pelo Deus do espiritismo. É sua missão.
Alguns espertinhos poderão pensar: “ora, mas existem noruegueses sofrendo e africanos felizes”. A estes “espertinhos”, pergunto: “Quantos? Quantos noruegueses estão sofrendo com a miséria, com a doença, a fome, a guerra e com a insalubridade e quantos africanos possuem o conforto de uma moradia decente, um bom hospital, transporte, laser, uma comida farta e saudável, bem como uma boa educação, enfim, uma vida digna e prazerosa? Qual é a expectativa de vida na Somália e na Noruega, na Suíça ou na Dinamarca?”.
Não há como ser ludibriado por argumentos falaciosos como os da doutrina espírita se uma reflexão mais profunda for feita.
Para o espírita, o mendigo na calçada é uma pobre alma que não evoluiu e que agora está pagando pelos erros da vida passada. Ele não é um problema social. Se aquela alma não estivesse ali, estaria em outro lugar desde que estivesse sofrendo. Foi tudo premeditado por Deus. Este pensamento traz várias conseqüências no modo de ver a vida e como conduzi-la. Cria-se uma visão deturpada do ser humano, do sofrimento alheio e da sociedade.
Assim sendo, a caridade espírita não é uma benevolência, mas sim uma forma de ser “promovido”. Fazer boas ações na religião é subir degraus. Não há nada de bondade nisso. Onde há recompensa não há caridade. Há sim, uma troca.
É nisso que o espiritismo acredita. E é isso que eu, como ser humano, não posso deixar passar ileso.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Desejo e a Bolsa Amarela


Que droga!

Mais uma vez às vontades.

Me torno dona incontrolável dos meus desejos. Tento sentir com a razão, me controlar para não ir.

- Será que devo?

- O que?

- Controlar, ora!

Não sei o limite da consequência e da inconsequência, do ir ou do ficar. Só sei que quero e não estou conseguindo controlar. Minha bolsa amarela tá que não se aguenta. Ontem, quase que arrebenta. Já remendei a alça várias vezes, mas as pedras... pesam, viu?

Tento pedir ajuda, alguém pra dividir o desejo, os sonhos, mas quem é o outro se não espectador do meu prazer ou desprazer? Alguns se sujeitam a dicas, conselhos e tem mil opiniões a oferecer, mas ai, ai, o desejo é surdo e não quer nem saber. Ele continua preso na bolsa, sem espaço pra nascer, crescendo até uma hora que a bolsa vai romper.

Não sei se vou ou se fico, o problema é que tá dolorido, todo esse agito, esquisito, aqui comigo. Sexta feira eu resolvo, na segunda eu decido, na terça eu desisto e começo tudo de novo.

Tormento dos aflitos é quando um "desejo bonito," se torna sucumbido pela permissão da carteira vazia, desprovido e da alma sem coragem, em busca do desconhecido.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Primeiros aforismos

Sempre falo para as pessoas sobre minha paixão pela filosofia. Não raramente, escuto delas que filosofia é muito complicado ou então que é “coisa de gente doida”. Até agora não entendi porque pensar de forma crítica, na tentativa de compreender melhor o mundo em que vivemos, possa ser tão sofrível, complexo ou insano.

Para os gregos, Deus estava no Olimpo - uma alta montanha da Grécia. Mas um belo dia, o homem escalou o Olimpo. Jesus desmentiu os gregos e disse que “Nosso Senhor” está no céu. Galileu e Copérnico surgiram séculos depois e expulsaram-no de lá através de seus estudos. Bem adiante, foi a vez de Darwin provar-nos que não fomos criados à imagem e semelhança de Deus como imaginávamos, a não ser que Ele seja um primata. O discurso se modernizou e a igreja nos conscientizou de que Deus, na verdade, está "dentro de nós". Freud, por sua vez, com a descoberta do inconsciente, expulsou Deus de dentro de nós também. Mais recentemente, o atual Papa disse que Deus foi responsável pelo Big Bang e que o Gênesis é uma alegoria. Acredito que Deus agora está no limbo, lá no início de tudo, onde a ciência talvez nunca alcance. A atitude do Papa foi emergencial e necessária para assegurar a "existência" do “Todo-poderoso”.

O que as pessoas chamam de “sonho” deve ser sempre algo irrealizável ou, no mínimo, remotamente realizável. Do contrário, é melhor chamar de meta, objetivo ou plano. Isso talvez possa, prática e psicologicamente, encurtar a distância entre o desejo e a realização.

Conforme Hans Kelsen, uma norma sem coercitividade não pode atingir sua eficácia. Da mesma maneira devemos entender o demônio e o inferno dentro dos planos divinos. O que seria de Deus sem eles? Podemos inferir então que o inferno não pode ser aqui como muitos pensam. Senão, onde residirá a coerção divina?

Quando há rumores de que algum pastor está usando a arrecadação da igreja em benefício próprio, os fiéis não se enfurecem e nem precisam disso. Eles têm a convicção de que, se o pastor está fazendo isso, Deus o castigará. E por isso, nenhum deles deixará de pagar os dízimos seguintes. O dinheiro é para Deus e Ele sabe o que fazer e como punir quem pratica o furto. O mesmo não acontece quando o caso deixa de ser furto e passa a ser homossexualismo, aborto, drogas, alcoolismo, adultério, entre outros. Pela atitude da maioria dos evangélicos frente a estes problemas, concluo que o Deus deles só saiba punir sem interferência de terceiros os casos de furto.

Durante a vida, uma pessoa comum vive solteira por apenas três motivos:
1 - Por opção: ela deseja estar solteira.
2 - Por incompetência: ela não consegue segurar e nem administrar os relacionamentos que inicia ou não sabe bem como iniciá-los.
3 - Por arrogância: a pessoa se acha tão especial que ninguém serve para ela. Ninguém está ao seu nível.
Conclusão: se você tem saúde, está solteiro, buscando alguém para se relacionar e, depois de várias tentativas nada funcionou, seja mais humilde e inteligente para compreender as pessoas. Assim seu objetivo será alcançado.

A fé atua onde a ciência falha. Ela é a opção daqueles que não conseguem conviver com a dúvida e com o fato de que a ciência nunca resolverá todos os conflitos humanos (e nem é este o objetivo dela). Com isso, a fé acaba cunhando respostas improváveis e ilógicas que não explicam nada. Mas tudo bem. Elas cumprem bem a função de preencher as lacunas da ciência.

Se alguém lhe elogia a beleza você pode, como muitos, dizer: "são seus olhos". Ou simplesmente: "obrigado". Geralmente a resposta irá variar conforme a autoestima de quem recebe o elogio.

A modéstia cabe muito bem nas situações em que você não está seguro sobre aquilo que está falando. Do contrário, ela não serve para absolutamente nada!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A lição de Richard Dawkins

"Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz o dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos...
Nós, uns poucos privilegiados que ganharam na loteria do nascimento, contrariando todas as probabilidades, como nos atrevemos a choramingar por causa do retorno inevitável àquele estado anterior, do qual a enorme maioria jamais nem saiu?"

Trecho extraído da obra "Deus, um delírio" de Richard Dawkins.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A VIDA CRUZA CAMINHOS



A vida é uma coisa doida mesmo né? É uma longa viagem de trem, embora hoje quiséssemos andar só de avião pra chegar mais rápido. Mas a velocidade nem sempre é substancial nessa viagem. Às vezes é preciso desacelerar e ir mantendo o ritmo da locomotiva.

Durante a viagem parece aquela placa: “Pare, olhe, escute, cuidado ao atravessar”. Bate uma dúvida cruel, vou ou não vou? Todo mundo já se deparou com essa placa, pelo menos uma vez na vida. Muita gente já parou muitas vezes e tem gente que nem para, segue direto sem ver os sinais. Isso porque em alguns momentos estamos surdos e cegos. A verdade é que cada um faz as suas escolhas, errando ou acertando. Isso é a vida!!!

O combustível dessa viagem é a nossa motivação, nosso desejo de chegar depois da montanha. São os momentos de alegria, de prazer, as dores e decepções que nos fazem partir e dar a largada novamente. É preciso deixar as “estações” para trás e seguir em frente. Nas janelas dos vagões muita história vai se acumulando na nossa memória. São paisagens de dias quentes, calorosos, são paisagens de dias difíceis chuvosos. São primaveras e flores, são vendavais e tempestades.

Em algumas estações passageiros saem e novos adentram na nossa locomotiva, trazendo suas bagagens cheias de sonhos, amores, decepções e desejos. Esses passageiros são deliciosas surpresas que encantam e direcionam nossa viagem. Afinal, quantas vezes mudamos nossa direção, mudamos o rumo só para seguir mais um pouquinho com quem a gente ama? Isso é a melhor parte da viagem: cortar caminhos, conhecer pessoas, cidades, novas paisagens.

Outra coisa nessa viagem é quando saímos do trilho. Dá um trabalho, um frio na barriga! Mas é preciso correr riscos. Viver aventuras, explorar, experimentar e saber a hora certa de engatar de novo.

Então a locomotiva segue. É hora de dizer: Boa viagem! Até a próxima parada, a gente se encontra por ai.

Foto: by Tatiane Martins - www.flickr.com/photos/tatianemartins/

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Homogeneidade cultural - Parte II

Na periferia, pessoas assistem ao reality show e navegam na internet das lan houses à procura das fofocas sobre os artistas da TV. Na zona sul os burgueses também assistem, mas em high definition. Para saber das fofocas não saem do quarto e com apenas um toque, o iphone acessa o twitter e mostra o dia-a-dia das estrelas.
Nas danceterias do morro dança-se funk. Nas boates frequentadas pelas elites, funk.
Nos ônibus, até mesmo na mão de gente que não está sentada pode-se ver um livro de auto-ajuda que recentemente tornou-se best seller. Nos cyber cafés e praças da zona sul é muito comum encontrar alguém lendo The Secret - isto mesmo, em inglês, para praticar o aprendido no curso de idiomas.
Enquanto marginais assaltam os supermercados, políticos assaltam os cofres públicos. 
Se na escola pública o favelado soca o professor no final da aula - o famoso "te pego na saída" - na universidade particular o playboy esfaqueia o mestre por causa das más notas - "te vejo no inferno".
No Complexo do Alemão fazem "churrasquinho" ou a "acunpultura carioca" (veja aqui). Na zona sul, esquartejam empresários em mil pedaços, queimam índios e espancam empregadas, prostitutas e gays nos pontos de ônibus.
Na escola pública, alunos furtam pertences um dos outros... Na universidade privada também!
Se um caminhão carregado tomba na rodovia, saqueamento da carga. Sempre para um Fusca pra levar um pouquinho... e um Honda Civic também!
Marginais arrombadores. Burgueses hackers
Nem esclarescidos nem ignorantes votam no PT ou no PSDB. Eles votam na Dilma ou no Serra.
No ENEM vaza gabarito e nos concursos públicos de alta remuneração também.
PM e PF, corruptas.
Se as oportunidades, o acesso aos bens de consumo, à educação e à cultura já não podem fazer tanta diferença nos comportamentos dos mais favorecidos, o que é que pode então?
Como diria o seriado mexicano: "Oh! E agora? Quem poderá nos defender?"

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Entrevista com Leonardo Boff

Em entrevista à Revista Star (Belo Horizonte), Leonardo Boff, um dos maiores teólogos da América Latina fala da atual Igreja Católica sem medir palavras e acusa o Papa de trabalhar com o crime e o pecado.
Conheça um pouco da história deste mestre e entenda melhor porque a instituição católica a cada dia perde mais fiéis para outras religiões e para o agnosticismo/ateísmo.
Realmente imperdível.

Leia a entrevista aqui.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tropa de Elite 2: a moral às avessas

Primeiramente, gostaria de dizer que considero "Tropa de Elite 2" um dos melhores filmes que o cinema nacional já criou. A trama é muito bem estruturada e traz ótimas interpretações. Wagner Moura, como sempre, está mais convincente do que nunca. Tão convincente que consegue facilmente trazer à tona, um sentimento, ou melhor, uma noção antiga que, apesar de abrandada pelo tempo, sempre renasce com furor nas épocas em que a violência aumenta. Em frente à tela não é diferente quando somos expostos às cenas como as do longametragem. Nos convencemos de que o correto é que o Estado nos vingue e de que violência se combate com violência.
Para agravar o quadro da moral deturpada que aflorou com a mensagem exposta por José Padilha no cinema, nestes últimos dias, o país está acompanhando na TV (e na pele) a guerra ao narcotráfico que se instaurou no RJ. Isto faz com que os telespectadores projetem na realidade as cenas do filme, fazendo uma analogia equivocada e consagrando os soldados do BOPE como heróis nacionais.
No cinema, em cenas como a que Nascimento espanca o político, a galera vibra como se estivesse no estádio de futebol e seu time acabado de fazer um gol. Logo no início do filme, na cena em que o traficante interpretado por Seu Jorge leva um tiro e morre na rebelião, é impossível não escutar um "bem feito" ao lado.
Um detalhe vale ser destacado: em Tropa de Elite 2, conforme o próprio nome, "o inimigo agora é outro", enquanto que no RJ, a ação do BOPE é a ação deste "outro" (o sistema). Um sistema que age, desastrosamente, matando inocentes que, no final, são tratados como "efeito colateral" do combate.
Juntando tudo:  o clima instaurado pelo filme (que foi assistido por milhões de brasileiros), as imagens reais do BOPE em ação (com edições cinematográficas feitas pela imprensa) e ainda, o jargão do Capitão Nascimento "bandido bom é bandido morto", ninguém tem mais dúvidas de que matar o bandido é a coisa mais natural e mais correta a se fazer (uma analogia com a pena de morte seria  razoável). Nascimeno é o nosso "Robin Hood da segurança pública" que justifica o bem praticando o mal. Tortura, gravações e provas ilícitas, fazer justiça com as próprias mãos, vale tudo em prol da segurança. "Os fins justificam os meios".
Nessas horas, em pleno calor das imagens (seja da ficção ou da realidade), Direitos Humanos é papo de "esquerdinha de merda" e coisa pra "Che Guevara". Revestimo-nos então, com a famosa Lei de Talião: "olho por olho, dente por dente", tão arcaica quanto moderna, porém, desta vez na pior de suas vestes.
Antes de remediar, ou seja, de combater o tráfico, deveríamos nos perguntar: por que é que aquelas pessoas na favela traficam? Por que elas optam pelo crime? Ou até melhor... Porque é que existem tantas favelas no Brasil? Para dar esta resposta não é preciso ser nenhum gênio das ciências sociais, pois qualquer brasileiro sabe o quanto é incompetente o nosso Estado. Todos sabemos que em matéria de distribuição de renda e de reforma agrária, nosso governo caminhou quase nada. Qualquer um sabe da desigualdade que há na sociedade e o quão distante ela está de ser reduzida a um nível tolerável. Tudo culpa do Estado? Ora, de quem mais poderia ser senão do administrador dos bens públicos? Não é o Estado quem cobra impostos no intuito de promover o bem comum?
Por estes motivos, não se pode tratar o combate na favela como um simples "toma-lá-dá-cá". Matar os bandindos é eliminar (remediar) um problema que o próprio Estado criou. Um problema que ele não consegue resolver e que perdeu o controle há tempos. Assim sendo, aqueles que nasceram no meio da insalubridade da favela, em meio à falta de oportunidades e do desemparo estatal, se vêem punidos pela segunda vez pelo mesmo carrasco.
Não se trata de defender a impunidade ou de ser passivo frente a tudo que está acontecendo. Estou dizendo que este sentimento alimentado pela mídia e pelo filme é retrógrado e incompatível com um Estado Democrático de Direito. A polícia não é e nem deve ser instrumento de vingança da sociedade - até porque os combatidos são frutos da contradição desta mesma sociedade, bem como parte dela.
Obviamente, na favela não há só traficantes. Pelo contrário. O que se tem notícia é de que a grande maioria é gente de bem. Na minha (radical) opinião, gente de bem na favela é aquela que se conformou com a miséria, abriu mão da ambição e procura não se iludir com a remota possibilidade de viver uma vida decente de classe média. Em contrapartida, aqueles que entraram para o tráfico são os "rebeldes", ou seja, aqueles que não querem se sujeitar ao salário de R$ 510,00 por mês para ficar atrás de um balcão ou "bater caixa" na feira pelo resto da vida (caso sobreviva).
Talvez esta seja uma visão radical para alguns que lerem este texto. O que não me espanta em nada, pois sei que para os muitos que venceram e estão fora da "margem de corte", a ideia é a de que o outro só não venceu porque não quis, porque não se esforçou. Nas discussões sobre este assunto sempre há alguém pra contar a historinha do cara que saiu da favela e do meio da miséria, que conseguiu se virar e mudar de situação (Silvio Santos é o exemplo predileto). Todo mundo conhece um caso desse, não é mesmo? Concordo, também conheço! Só não concordo com invocar a exceção para desqualificar a regra. Este é um péssimo recurso discursivo frequentemente utilizado por aqueles que, em um debate, querem inverter a lógica numa tentativa de transformar o falso em verdadeiro. Ou pior, como neste caso específico, transformar pessoas que na verdade são mais vítimas do que todos nós em exclusivos culpados pela violência que está exposta nas imagens, sejam elas reais ou fictícias.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Consultório bíblico

Laura Schlessinger é uma conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos. Ela tem um desses programas interativos que dá respostas e conselhos aos ouvintes que a chamam ao telefone. Recentemente, perguntada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se trata de uma abominação, pois assim a Bíblia o afirma no livro de Levítico 18:22. Um ouvinte escreveu-lhe então uma carta que vou transcrever:
“Querida Dra. Laura: Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a Lei de Deus. Eu mesmo tenho aprendido muito no seu programa de rádio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior número de pessoas possível. Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida, eu me limito a lembrar-lhe que o livro de Levítico, no capítulo 18, versículo 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação. E ponto final... Mas, de qualquer forma necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de cumpri-las:
Gostaria de vender minha filha como serva, tal como o indica o livro de Êxodo, 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?
O livro de Levítico 25:44, estabelece que posso possuir escravos tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora poderia esclarecer esse ponto? Por que não posso possuir canadenses?
Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual (Levítico 18:19, 20:18, etc.). O problema que se me coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas.
Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro de Êxodo 35:2 claramente estabelece que quem trabalha nos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?
No livro de Levítico, 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu preciso de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% pra que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?
A maioria dos meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isto esteja claramente proibido em Levítico 19:27. Como é que eles devem morrer?
Eu sei, graças a Levítico 11:6-8, que quem tocar a pele de um porco morto fica impuro. Acontece que adoro jogar futebol americano, cujas bolas são feitas de pele de porco. Será que será me permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?
Meu tio tem uma granja. Deixa de cumprir o que diz Levítico 19:19, pois planta dois tipo diferentes de sementes no mesmo campo, e também deixar de cumprir a sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ele passa o dia proferindo blasfêmias e maldizendo. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-los? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, qual seja, o de queimá-los numa reunião privada, como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico 20:14). Sei que a senhora estudou esses assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda. Obrigado de novo por recordar-nos que a Palavra de Deus é eterna e imutável.”

Extraído da Obra "Ostra Feliz não Faz Pérola", de Rubem Alves.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Viva Cuba!!!

Acho que a admiração que tenho pelo modelo socialista não é novidade para ninguém que me conhece. Desta forma, não poderia deixar de postar aqui o melhor comentário que li essa semana!
Foi retirado do blog do Estadão, na seção de artigos do Marcos Guterman que, apesar de ser um direitista conservador e burguês (será que incorri em algum pleunasmo?), escreve comentários, resenhas e notas muito interessantes e por vezes hilárias, como no caso abaixo:

Com o slogan “Há um soldado em cada um de nós”, foi lançada nesta quarta-feira a mais nova versão do videogame Call of Duty. A primeira das “operações clandestinas” dos EUA da qual o jogador é convidado a participar é matar Fidel Castro.
A ditadura cubana, por meio do site Cubadebate, não tardou a ironizar: “O que o governo americano não conseguiu realizar em mais de 50 anos pretende fazer agora de modo virtual”.

É como disse meu amigo Evandro: "são os desejos reprimidos do inconsciente dando vasão pela fibra ótica"! rsrs

Leia também: O Bom do Ruim


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A ANGUSTIA DO LIVRE ARBITRIO

Posto que, somos seres desconectado com o planeta mãe (Terra) assim como os outros animais existentes e ambulantes desse mundo, não nos cabe dizer se somos livres ou não. Dado que, todos juntos estamos presos nesse universo, tudo leva a crer que somos livre. Mas indo mais além, nos confins da nossa galáxia, estamos todos no mesmo barco.
O Bebê não tem escolha a não ser tomar o leite do peito da mãe. Quem poderá escolher por ele é a própria mãe. O cachorro no entanto sabe escolher entre a carne podre e a carne saudável e a ele não foi conferido nenhum ensinamento a não ser pelo sentido do ofato, que no caso dele é bem apurado. Temos aí então, a interferência do sentido na hora da opção.
Se quero escolher entre a calça jeans e a social o meu sentido da visão que julgará. Se quero escolher entre o doce e o salgado, quem julgará é o meu paladar. Há quem diz que os olhos também julgam a comida, tem gente que não come jabuticaba porque imagina cocô de cabrito. Na música o melhor pulso+harmonia ganha a eleição no caso do DJ. E no sexo, o tato leva de bandeija a pele mais gostosa. Afinal a maioria prefere o homem ou mulher gostoso(a) à qualquer um dos dois pesando 180 kilos mas com um rosto divino.
Temos que levar em conta os sentidos no livre-arbítrio. Naquele momento, pois o livre-arbítrio é um sentimento hipócrita e a todo momento está mudando. Hoje não gosto de Funk (Lê-se; Funqui - de acordo com meu amigo Léo) rs rs. Mas quem sabe amanhã posso me apaixonar por uma garota que gosta e eu passe a gostar também.
Em resumo o livre-arbítrio está ligado com os sentidos e com o momento. Se está ligado com os sentidos, voltaremos para René Decartes que nos diz que estamos presos ao sentidos. De fato ele está certo. Se quero maça meu paladar mandou que eu escolhesse maça. Se quero ouvir Mozart minha audição mandou que eu ouvisse Mozart. E assim vai.
Mas se formos levar tudo isso para o lado místico da religião, que é onde me encontro, acredito que nossos desejos realmente estão ligados a algo místico. No fundo de nosso corpo, o que chamamos de alma, da qual abrirei um parágrafo para mostrar a minha interpretação de alma;
No mínimo do nosso corpo, até onde pode ir o maior microscópio, aquele microscópio que Stephen Hawkings disse que precisaria ser maior que o sistema solar para sondar a menor particula do mundo, pois é, com ele. No limite dele, onde não se vê mais nada dentro de nós, após o lepton e outras partículas menores que acharam bem depois do átomo, é onde se encontra a nossa alma. Onde nada encosta em nada e só se vê escuridão. Onde atua a física quântica. Nessa unidade de tempo, onde tudo pode ser mais rápido e que está presente em tudo que vive, nesse vazio onipresente, é onde vive o grande mistério que chamamos de Deus, na minha opnião. De lá que vem nossas vontades. Do mesmo modo místico que enxergamos nossas lembranças na mente ver vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=8t7I1Sl3G2k&feature=related) É importante enfatizar esse espaço mínimo entre a matéria dentro de cada um de nós. Esse vazio assombroso que uni a matéria como rochas na montanha. Cada célula solta e ao mesmo tempo colada. Bem como a água que no mar é uniforme mas na chuva é solta. Feito a comida de pião chamada de "Capitão" onde se junta arroz e feijão na mão e aperta bem para virar tipo um bolinho. Algo parecido com o angú que solto é fubá mas que ná água quente fica cremoso e uniforme. Assim é o mundo visto de longe. Se pudermos distanciar infinitamente do universo e olhassemos pra ele, veríamos um bolo de luz. Dentro disso tudo estão os nossos sentidos e não tenho mais nada a dizer porque me perdi. Isso faz parte. Meu livre arbítrio está confuso e não sei escolher sobre o que realmente quero falar. rs rs. Meus sentidos se perderam, não sei mais dissertar sobre o tema. Estou confuso. Preciso decidir entre parar de escrever ou continuar. Mas não consigo. Eis um dilema, o que fazer senhor? Ele me disse pra parar por aqui antes que as pessoas pensem que sou um idiota, rs rs rs.
Abraços a todos.

Celinho
11/11/2010

A ilusão do livre-arbítrio

Embora tenha sido objeto de discussões na filosofia grega, foi com Santo Agostinho, no século IV, que o livre-arbítrio se transformou em doutrina teológica, sendo a partir daí amplamente difundida e adotada pelos religiosos. Grosso modo, o livre-arbítrio seria a possibilidade de agirmos conforme nossa vontade em casos que, obviamente, há escolhas a serem feitas. Por outro lado, não há livre-arbítrio quando não for possível agir de forma adversa.
No cotidiano, temos a faculdade de realizar ações que, em tese, poderíamos não realizar caso quiséssemos. O que defendo aqui é que esta noção não é tão simples quanto parece. Será que temos realmente a faculdade plena de escolher entre essa ou aquela hipótese? Estamos inteiramente livres para escolher entre fazer ou não fazer certas coisas?
Já no século XVII, Spinoza dirá que “a vontade não pode ser chamada causa livre, mas unicamente necessária”. Talvez começasse aí a ideia que Freud alicerçou como sendo suas teorias sobre os impulsos e desejos da nossa mente e que atualmente, viria a inspirar Giannetti no seu fisicalismo. Freud, sem modéstia, anunciou que suas descobertas sobre o inconsciente causariam na raça humana o sofrimento pela terceira “cisão narcisista” (1) por afirmar que o homem não age de forma livre, mas sim conforme seus impulsos e desejos inconscientes, como se fossemos reféns do mesmos.
O fisicalismo (2) irá mais longe ainda e irá propor que o “eu” é uma construção da mente. É um ente abstrato que acreditamos existir devido a nossas experiências de vida, mas que na verdade, não é nada senão o nosso próprio cérebro exigindo as satisfações e as realizações de nossas vontades, forçando-nos agir da forma que agimos.
Desta forma, acreditamos estar agindo a todo instante conforme queremos e escolhemos sem notar que na verdade, estamos satisfazendo desejos - e não necessidades - que se encontram em nosso inconsciente. Tal noção é facilmente percebida se começarmos a notar o que nos leva a consumir certos produtos, a trabalhar em certas atividades e a nos relacionar com determinadas pessoas. Sem muito esforço, perceberemos o quanto condicionamos nossos atos aos resultados que estes trarão. Por vez, estes resultados que almejamos são construídos pelo meio social em que vivemos, de forma que nossas ambições e desejos são moldados não só pela realidade que vivemos, mas também por aquela que desejamos viver. O agir é condicionado à finalidade. Conforme Jamie Arndt, psicólogo da Universidade do Missouri, "sabemos que o que é acessível em nossas mentes pode exercer uma influência no julgamento e comportamento simplesmente por estar ali, flutuando na superfície da consciência".
Voltando à Spinoza, o filósofo dirá ainda que “o esforço pelo qual cada coisa se esforça por perseverar em seu ser, nada mais é do que a sua essência atual, sendo que, a partir das afecções que a coisa sofreu, ela tende sempre a buscar aquilo que a conserve ou aumente a sua capacidade de afetar outros corpos” (3).
Spinoza tece críticas relevantes ao livre-arbítrio que acreditamos ter considerando-o mera ilusão (o que Giannetti trabalhará também em sua obra “O Auto-engano”). Embora em outras palavras, o filósofo descreve metaforicamente mas, de forma parecida, o que Freud cunhou em relação ao controle de nossos desejos e impulsos no trecho seguinte: “Se a pedra lançada tivesse consciência do seu movimento e da sua tendência a perseverar no movimento, julgar-se-ia livre, na medida em que ignoraria o impulso que produziu o seu movimento, que determinou de uma certa maneira a sua faculdade de estar em movimento ou em repouso. Do mesmo modo, aquele que na cólera, na embriaguez ou em sonho, crê agir livremente, é porque ignora as forças que o impelem contra a sua vontade.”
No campo religioso, o livre-arbítrio não pode ser visto senão como uma limitação aos poderes de Deus, pois, sendo ilimitados seus poderes, não haveriam explicações para que ele não interferisse positivamente na Terra para impedir os males. A teodicéia proposta por Epicuro é incisiva neste aspecto: se Deus é onipresente (está em todos os lugares), onisciente (tudo conhece e sabe) e onipotente (tudo pode), em conclusão, só há três hipóteses para explicar os males mundanos. Ou Deus é cruel e não quer deter o mal, ou é impotente porque não pode detê-lo ou por último, ele não sabe como fazê-lo. Com o livre-arbítrio, a noção de que "nem uma folha cai da árvore sem a vontade Deus" se desfaz e é transferida para nós a responsabilidade de tudo (ou quase tudo) que nos rodeia. Deus se exime das desgraças terrenas, cabendo a ele apenas julgamentos pós morte, o que em contrapartida cria sérias controvérsias quanto a responsabilidade de Deus para com o mundo e para com o homem (sua criação à imagem e semelhança).
Em suma, diria que é complexa a noção que possuímos de livre-arbítrio pelos motivos expostos tanto no âmbito prático como no teológico. Se há mesmo uma possibilidade plena de escolha e se somos realmente "condenados à liberdade" como propôs Sartre, podemos concluir que a existência ou não de um Deus é indiferente, pois nada muda para nós enquanto seres vivos e agentes. Por outro lado, se não há essa liberdade plena em que acreditamos, só restou a hipótese de que somos reféns de Deus ou dos nossos próprios desejos.

1 - Para Freud, a primeira cisão narcisista na humanidade aconteceu com a descoberta de Copérnico de que a Terra não é o centro do universo, mas uma parte insignificante dele. A segunda seria causada por Darwin, que retira o posto do homem de criação divina, comprovando através de seus estudos que nada somos senão uma espécie animal que evoluiu.
2 - Para o fisicalismo, mente é igual a corpo e tudo se reduz a um processo físico, não existem idéias privadas nem dualismo.
3 - Retirado da obra “A Ética” de Spinoza.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Laicidade à brasileira

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.

(...)

Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;

(...)

Art. 210 § 1º - O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.