domingo, 1 de novembro de 2009

O Bom do Ruim

Escrevo em prol de um sistema falido (acho que com apenas esta frase, não dá nem pra saber de qual deles estou falando, se do capitalismo ou do socialismo).
Pois bem. Como defensor dos fracos e oprimidos que geralmente sou, advogo para o socialismo já faz um tempo. Esclareço que desde que entendi a lógica do mesmo, defendo-o como simpatizante e não como militante.
Primeiramente, reafirmo que para se criticar algo é necessário conhecê-la ao menos e que, quanto mais se conhece, mais profundas e acertadas podem ser essas críticas. Confesso que nunca vivi um socialismo e nem visitei Cuba ou outro país que adote o sistema. Minha visão é baseada na teoria, ou seja, baseada em livros e estatísticas. Entretanto, para criticar o capitalismo não é necessário muito esforço e medir as palavras. Basta prestar um pouco de atenção em nossa volta, no mundo que construimos. É realmente muito fácil.
Redijo focado naqueles que não conhecem o socialismo ou têm uma noção mais do que vulgar do que este possa ser. Texto que assim sendo, não se encarregará de dar uma demonstração detalhada do que é ou deveria ser o sistema, mas única e somente, abordar seus pontos mais controversos em defesa desta ideologia que para a grande maioria é sinônimo de um desastre histórico completo e nada mais. Então, justiça seja feita.
Vale destacar, que o socialismo teve sua origem como consequência do próprio capitalismo. Quem sabe um pouco de história, mais especificamente sobre a situação social européia pós revolução burguesa entende que nada mais natural e dialético, é o surgimento de uma ideologia igualitária, do idealismo marxista e das intensas lutas da classe operária, assim como a tomada de Paris pelos trabalhadores e todo embate entre burguesia e proletariado, além de vários outros enventos do tipo que marcaram os meados do século XIX (momento histórico muito bem retratado no filme francês Daens - Um Grito de Justiça, de 1993, onde trabalhadores, entre estes crianças com menos de 10 anos, não possuiam o mínimo de dignidade e direitos).
Entendo que, comparar o que é melhor (ou pior), se o capitalismo ou o socialismo, é como comparar se é melhor comer uma pizza quando se está com fome ou nadar numa bela piscina quando se está com muito calor. Se é pior morrer afogado ou queimado. Ou seja, não há melhor nem pior. Ambos são cheios de falhas, de problemas e também de pontos positivos (coisa que no socialismo grande parte das pessoas não consegue enchergar). Isso irá variar da consciência de cada um. Acredito que um sistema que comporta uma população de 6 bilhões de pessoas, onde destas, 1 bilhão (1/6) passa fome, não possa ser algo bom. Um sistema onde necessariamente, para que um ganhe outro deve sair perdendo e que não consegue introjetar em seus indivíduos nada mais do que o consumismo e a competição, não pode estar correto. Uma sociedade mundial que, se somada suas riquezas materiais individuais e divididas equitativamente, não deixaria um só habitante sem casa, comida e conforto, certamente não deve ser objeto de orgulho.
E o socialismo? Bom, sabemos que perfeito também não é. Para dizer que não entrei no mérito das experiências passadas, apenas tenho a dizer que, Stalin ou Mao Tsé-Tung são tão loucos quanto Hitler e Mussolini e que buscar a explicação para as atrocidades socialistas em Marx, em sua teoria, é o mesmo que culpar Jesus Cristo pela inquisição católica.
Não canso de repetir em reiteradas conversar que tenho sobre o assunto que nenhuma ideologia funcionará se não houver a rara consciência. O ser humano, antes de se imaginar cumprindo uma lei, mesmo que seja para o bem coletivo, pensa em como burlá-la. Como exemplo prático, cito a nossa "lei seca". Antes que se cogite dirigir sem ingerir bebidas alcoólicas, pensa-se em como não fazer o bafômetro ou como "enganá-lo", seja com balinhas e manobras ou até mesmo em andar com um dinheiro a mais no bolso para o caso de parar em uma "blitz", testar a honestidade do policial. Assim é também com qualquer ideologia política, social, religiosa e etc.
No caso do socialismo especificamente, nunca funcionará mesmo, se toda a população não possui uma "consciência coletiva". Este é o ponto fundamental que o difere do capitalismo. Não há melhor nem pior, mais rico ou mais pobre, todos são um só, uma coletividade, uma sociedade como um todo. Necessariamente nesta, para que um cresça, outros terão que crescer. Muitos dirão: "mas isso é ruim, pois nem todo mundo se esforça de maneira igual e nem todos têm a mesma facilidade e destreza para o trabalho, desta forma, muitos trabalharão pesado para que outros se beneficiem sem fazer nada". É verdade. Mas isso já não acontece no capitalismo? O capitalista, geralmente, não é o cara que investe seu dinheiro e com isto administra seus lucros advindos do esforço das várias pessoas trabalham duramente para que ele se beneficie? Para a contra argumentação "administrar o capital também é trabalho". Sugiro ler um pouco sobre o tema, sobre a "mais-valia", sobre "força produtiva" e outros conceitos básicos para que se desfaça tranquilamente esta noção (um pouco de Marxismo não mata se você não for naturalmente louco).
Voltando à questão da consciência, num sistema igualitário, compromete-se tal quando alguns indivíduos se acham "melhores" do que os outros. É o caso, por exemplo, de alguns atletas cubanos que vieram ao Rio de Janeiro para os jogos do Pan Americano e fugiram da concentração onde estavam suas equipes, numa tentativa de refugiar do sistema socialista. Isto é muito compreensível. Simplesmente, este atleta se sente melhor do que seus companheiros. Ele acredita que merece ter um conforto maior do que os outros, status e destaque. Quer reconhecimento por seu mérito, mas não formalmente e sim materialmente. Não basta ser herói nacional. Ele deseja ser proprietário de mansões, carros importados e todo luxo possível quando se é um campeão esportivo, um atleta de ponta. Porém, se esqueceu que foi o próprio sistema em que ele cresceu que o tornou um atleta deste nível. Que num país capitalista, seria necessário um grande investimento financeiro para isso e que provavelmente, não conseguiria arcar com todo treinamento e sustento para se tornar um campeão. Quem conhece os números do futebol e de outros esporte no Brasil, de quantos tentam ser o "novo Pelé" e conseguem, sabe do que estou falando.
O capitalismo trabalha com uma lógica muito mais instigante e eficiente. Isto é necessário admitir. A noção difundida de que qualquer um pode vencer na vida e que para isso basta esforço e dedicação, é perfeita! Pois apesar da mínima probabilidade de uma pessoa pobre se tornar rica, mesmo assim, todos tem essa esperança. Para um vencer, outro tem que perder. Mas todos nós, tanto eu como você, acreditamos piamente que não seremos nós os perdedores. Cruel ilusão de um sistema que não absorve boa parte da mão-de-obra disponível no mercado e que introjeta a cada dia, de forma mais agressiva, o sonho do consumo e do status em cada indivíduo.
Quanto a utopia, considero o sistema capitalista tão utópico quanto o socialismo tendo em vista que este também não cumpriu a função a que ser propôs. A Revolução Burguesa nunca promoveu Liberté, Igualité e Fraternité. Além disso, destaque para os 220 anos de tentativas do Capitalismo em se mostrar um sistema eficiente contra 60 anos do Socialismo. Para uma boa análise comparativa, procuremos ver o que foi o Capitalismo nas suas primeiras décadas, no período da Revolução Industrial e depois tiremos as conclusões.
Diria hoje, que é no mínimo interessante que um país como Cuba, apesar de toda crítica negativa que recebe por ser filho único do sistema socialista atual, possa estar no ranking mundial de IDH's (Índice de Desenvolvimento Humano), à frente de países do G20 como Brasil, Rússia e China ou outros não menos desenvolvidos como México. (ver http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u633315.shtml). Mesmo com a falta de luxo e grandes tecnologias, Cuba é um país com 0,02% de analfabetos e com uma educação e medicina invejáveis a países de primeiro mundo. Uma população em que 85% possui casa própria e que os outros 15% moram de aluguel pagando 1 ou 2 dólares por mês para o Estado, num sistema de amortização da dívida, tornando-se assim proprietário, o morador que quitar o saldo devedor. Sobre o incentivo esportivo na ilha, basta ver o desempenho das delegações cubanas em Olimpíadas. Tudo financiado pelo Estado. A expectativa de vida é maior do que a dos EUA. Para conferir esses dados, há vários sites sobre os números sociais em Cuba. Em pouco tempo de pesquisa em bons sites, qualquer um pode confirmá-los e compará-los com o de outros países capitalistas tidos como "desenvolvidos".
Gostaria de deixar claro, que apesar da defesa do sistema socialista como simpatizante que sou, não acredito que seria possível e nem defendo, a esta altura histórica, uma implantação de tal sistema. Está fadado a se extinguir, não por bem e sim por mal. O capitalismo venceu (é que se vê até então). Cabe a nós correr atrás da nossa escassa sombra frente a este ensolarado e ardente mercado. Agora é tentar extrair o bom do ruim. Sendo assim, boa sorte a todos.

"Se você correu, correu, correu tanto
e não chegou a lugar nenhum
Baby, oh baby
Bem-vinda ao século XXI"
(Raul Seixas e Marcelo Nova)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O Que Eu Quero

Sim. O que eu quero? Quero muitas coisas, mas com certeza a mais importante delas é que quero ser feliz.
Quero amar e ser amada como se fosse pra sempre.
Quero cuidar do meu filho, dar todo o amor que tenho guardado. Quero vê-lo acima de tudo muito feliz.
Quero me entender com o meu pai, conversar com ele.
Quero morar sozinha, independente!!!
Quero pagar minhas contas e andar de cabeça erguida!
Quer sair dessa cidade, mudar. Respirar novos ares!
Quero ter tempo pra fazer as coisas boas da vida, assistir TV, ler um bom livro, rolar na cama com meu filhote e fazer muito, muito sexo “with Love”.
Quero viajar, conhecer outros povos, outras culturas.
Quero fazer compras. Quero comprar um tantão de coisinhas inúteis e sedutoras.
Quero falar não pro que me aborrece e sim pro que me dá prazer.
Quero retrucar bem alto quando falarem mal de mim.
Posso trabalhar, mas quero que isso seja inexoravelmente um TESÃO.
Quero sentir menos culpa por não querer tudo igual a todos.
Quero ter férias, 13º, INSS, FGTS.
Quero ler e descobrir sobre coisas que ainda não sei. Quero ouvir canções que nunca escutei.
Falar com pessoas que nunca falei. Quero ir pra Sampa, Cuba, Nepal, México e até Islândia.
Quero um balde de açaí, uma caixa de bombons só minha, um travesseiro e um filme pra ver.
Quero tudo isso e muito mais. Quero coisas que posso e não posso ter. Mas não quero perder essa mania de amar, amar você.
Quero a paz da inquietude, mas quero também ficar quieta pensando no que vou querer amanhã.
Enfim, quero, quero e quero. É o desejo rondando, batendo a porta, saindo pra fora pelo poros, pela carne, pela boca, pelo olhos e mais uma vez escorrendo pelas mãos da gente.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O Leitor (das entrelinhas)

Recentemente assisti ao filme "O Leitor". Quem já assistiu há de concordar, é um bom filme. Mas o que mais me chamou a atenção, foi o fato de mais uma vez, o cinema americano trazer a tona o tema do Holocausto. Evidência é: o assunto vende! E muito! Os motivos parecem ser óbvios, pois a comoção social da matança nazista é tida como a pior entre as piores coisas que já aconteceram em toda a história da humanidade. Se não foi a pior, com certeza é a mais lembrada. Coincidência? Filmes como "O Leitor", "A Vida é Bela", "O Pianista", entre outros, são lançados todos os anos (são muitos, quem é cinéfilo sabe), contando sempre a mesma e velha história, relembrando, dramatizando e comovendo-nos mais e mais, alimentando incessantemente a nossa pena e ao mesmo tempo nosso ódio. O que pouca gente sabe (talvez não tão pouca), é que o povo judeu é o mais rico do mundo. E mais, é o único povo que recebe uma indenização pelo genocídio, na intenção de "aliviar" a dor do massacre feito pelas nações participantes da Segunda Guerra Mundial.
Muita gente deve estar pensando que se trata de mais um texto de um louco neo-nazista ou de um desses caras que querem achar montagens nas fotos da guerra para afirmar que o holocausto não existiu. Longe de mim cair nessa empreitada. Não sou historiador e nem adorador de Adolf Hitler - acredite, eles existem!
Na verdade, me incomoda a injustiça. Uma injustiça encobrida pela história, pelo cinema, pelos livros e pela hipocrisia, pois nem de longe, a quantidade de judeus mortos se assemelha a de negros durante os séculos de escravidão ou a de índios na América com a chegada dos portugueses e espanhóis. Porque há tantos filmes e lágrimas por causa do povo judeu e nada se fala dos negros e índios? Não justifica o argumento de que a morte de um foi pior do que de outro. Morte, humilhação e violência são sofríveis igualmente em qualquer época, continente ou etnia. O que é pior? Câmara de gás ou açoite até o último suspiro? Dá pra escolher? Falar que a Segunda Guerra é um fato mais recente, também não é nem um pouco sensato. Dizer que o cinema faz isso para que não se repitam os erros do passado, também é uma piada. Além do mais, a piada da loura também seria engraçada se fosse com a morena ou com a ruiva no lugar.
Então, a pergunta é: porque não há tantos filmes, anualmente sendo lançados sobre negros e índios? Quando lançam, por que não há uma publicidade massiva também? Por que não ganham o Oscar? (Na verdade, nem são indicados, pois geralmente são produções de baixo orçamento e etc.). Por que negros e índios não recebem indenizações pelo genocídio também? Por que a morte destes parece tão menor perante a dos judeus, mesmo tendo números incomparavelmente maiores?
Acredito que perante essa rápida análise dos fatos históricos, é possível apenas confirmar dois velhos ditados populares: "dinheiro traz dinheiro" e "a propaganda é a alma do negócio."

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Só para esclarecer...

"A Ciência é fundamentada na idéia de que tudo o que sabemos sobre a natureza pode, em princípio, ser rejeitado caso esse conhecimento não passe pelos testes da observação e da experiência. Assim, toda teoria científica deve passar pelo escrutínio da comunidade científica. Testes e mais testes são feitos com o objetivo de avaliar se predicações de uma dada teoria são corretas ou não. Por mais estabelecida que seja uma teoria científica, ela está constantemente sujeita a novos testes e novas descobertas que podem confirmá-la ou falseá-la. Mesmo teorias amplamente conhecidas e estabelecidas, como a teoria da relatividade de Einstein, até hoje têm suas predições testadas. Continuamente, toda teoria é reavaliada à luz de novos dados e fatos observados na natureza. Uma dada teoria pode, então, ser modificada para acomodar esses dados ou simplesmente descartada, caso não seja mais sustentada pelo que sabemos sobre a natureza."

Trecho extraído de "A Goleada de Darwin", de Sandro de Souza.

sábado, 25 de julho de 2009

"Um por todos e todos por um"

Disse o filósofo francês Joseph De Maistre (1753-1821): "Cada povo tem o Governo que merece". Nada mais sábio! Todavia, não é o que parece quando conversamos com as pessoas por aí sobre a política. Em sua grande maioria, o povo, parece crer que o congresso é uma espécie de sociedade a parte, como se esta não saísse do mesmo lugar de onde todos saíram. Muitos se esquecem, que os eleitos um dia também foram povo, um dia também elegeram, estudaram nas mesmas escolas que muitos e vêem de famílias tipicamente brasileiras. Ou seja, são frutos de uma mesma cultura e a política que estes fazem, é reflexo de seu meio.
Cultura esta, de gente que valoriza a “esperteza”, que acha bonito ser malandro e que sempre “dá um jeitinho” pra tudo. Cultura de gente que paga outra pra ficar na fila para assegurar um lugar. Gente que “fura fila”, que dá uma grana pro guarda liberar da multa, que fica calado quando recebe um troco a mais no comércio, que finge de bobo quando a conta vem menor em um barzinho. Gente que se sente tranquila para falsificar a assinatura do colega de sala para tirar uma nota melhor na prova, que finge estar dormindo quando um idoso entra no ônibus e quer sentar no lugar que lhe é reservado. Só não vê isso por todos os lados quem não sai de casa.
Livrem-me do argumento: “você não pode generalizar”. Posso sim! Não porque todos, sem exceção, fazem isso, mas porque uma parte muito grande das pessoas o faz sem nenhum peso na consciência e a outra parte permite, de forma tácita, como se não fosse problema delas, corrobora o comportamento dos outros. “O problema não é o grito dos maus, é o silêncio dos bons.” Ser indiferente a tudo isso não justifica nem exime; consente. Alguém duvida, que em uma reunião, palestra ou evento com grande número de pessoas, em que os organizadores forneça em uma mesa, exatamente um pão como lanche para cada um, no final, os que ficarem por último correrão sério risco de ficarem sem o lanche? Quem é que, sabendo que tem um lanche para cada, não corre para pegar o seu pão com receio de ficar sem? A sensação é sintomática.
Esse é o maior problema no Brasil. Não é a pobreza, nem o Congresso, nem o Judiciário, nem os impostos ou a violência. É a educação. Digo, a educação moral e ética, coisa que não se aprende na escola nem na rua. É um problema de consciência, coisa rara por aqui. Qual a diferença entre roubar um chocolate na mercearia ou no bar e roubar um milhão de reias dos cofres públicos? Propocionalmente, o prejuízo aos proprietários é comparável .
Pensemos bem em nossas ações, em nossas escolhas e em nossas palavras, para que não fiquemos procurando culpados e nos esqueçamos de quem é que está construindo essa sociedade. A sensação é de nadar contra a correnteza, eu sei. Mas virar as costas não resolve o impasse. Comportar-se normalmente numa sociedade doente, não é sinônimo de saúde. Depois não vá reclamar, nem do espertinho que entrou na sua frente na fila, nem do deputado que constrói castelo com dinheiro do povo.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Show de audiência: horror, gozo e medo na TV

"Os meios de comunicação, especialmente aqueles que se aproveitam dos mecanismos sensacionalistas de exposição das mazelas sociais, exploram a elevação dos níveis de audiência por meio dos estímulos estéticos fortes proporcionados pela exibição de cenas violentas, que exercem sobre a afetividade humana um impacto ambíguo: ao mesmo tempo em que geram a repugnância, geram também o desejo de contemplação do horror. A sociedade da informação, na era pós-moderna, continua sectária da 'concupiscência do olhar'. Da mesma forma que um desastre desperta a curiosidade do indivíduo que se encontra próximo ao local desse acontecimento fatídico e vai ver todos os detalhes possíveis, assim também se dá quando os desastres são transpostos para as imagens da televisão. O máximo de prazer estético que pode ser fornecido ao telespectador por uma rede de TV é a exibição da morte de um indivíduo, ou, em circunstâncias mais atenuadas, dos conflitos entre as forças policiais e os criminosos, as ações de assaltantes, ou ainda as gravações secretas de repórteres sobre as vendas de drogas por traficantes. Em todas essas circunstâncias há no telespectador a erupção da repugnância, do horror e da lamentação, mas também um gozo secreto de prazer pela oportunidade que lhe é concedida de ver, sentado confortavelmente na poltrona, a destruição humana em múltiplas maneiras. O resultado existencial dessa soma de imagens, todavia, não tarda a aparecer, e é o medo."

(Renato Nunes Bittencourt - Doutorando em Filosofia pelo programa de pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Em um futuro não muito distante...

Mesmo com uma ala radical da Igreja Católica apoiada pelo Papa Bento XVI (que de bento não vejo nada) tornando-se mais evidente com a posse deste, ainda sim, o que se vê há tempos, no Brasil e em boa parte do Ocidente, é uma decadência do Catolicismo. Me pergunto se o meu meio poderia causar-me uma falsa impressão. Creio que não. Tido como o maior país católico do mundo, o Brasil apresenta uma sociedade religiosa interessante: perdida ideologicamente e dotada de seguidores tão perdidos quanto.
Primeiramente, gostaria de saber definidamente o que é um "católico-não-praticante". Como funciona isso? O título dado parece ser claro. A meu ver, nem tanto. O que é pertencer a um grupo ou comunidade religiosa da qual não comungo as mesmas atitudes, doutrinas, dogmas e comportamentos? Comparo a um torcedor de futebol, mas que não vai ao estádio, não assiste aos jogos do seu time, nem acompanha placares, resultados, campeonatos e etc. Que tipo de torcedor é esse? Em que ele colabora para o seu time e o que o time pode esperar dele? O "católico-não-praticante" é para a Igreja o mesmo que esse torcedor para o seu time. Nada! Ele apenas faz números, pois se perguntado sobre sua religião, ele se afirmará católico, mesmo tendo ido à igreja pela última vez há 3 anos atrás para um casamento de um amigo. Caso este "fiel" tenha um filho, o batizará também conforme a tradição e apenas fará mais números. E para piorar (ou melhorar), vejo que os católicos-não-praticantes são maioria! Duvida? Olhe a sua volta, no trabalho, na escola, na família, quantos se intitulam católicos e frequentam regularmente a igreja. Não se espante se for apenas alguns. Percebe-se nitidamente a diferença, a nível de devoção, dos evangélicos, espíritas e outros religiosos para os católicos.
Outro tipo de católico não menos interessante, é o "católico-x-tudo", que também tem sido cada vez mais comum na sociedade moderna brasileira: ele possui cristais e outros artefatos para atrair a "boa energia" e afastar o "mau-olhado", acende uma vela para os Orixás na sexta-feira, não come carne vermelha na sexta-feira santa, acredita que já esteve neste planeta em vidas passadas, faz simpatias, benzeções e não abre mão da missa católica aos domingos pela manhã. "Católico Apostólico Baiano", entitulou Rey Biannchi.
Ironias a parte, acho que ninguém discorda que nossos avós eram mais fiéis ideologicamente quanto participativos no que se diz respeito a religião católica.
Alguns poderiam me perguntar, "mas que mal tem isso?". E eu diria: Todo! (Não para mim, mas para o Catolicismo). Isso se deve a perda de unidade e de sustentação do argumento religioso diante do momento histórico em que vivemos, onde a ciência avança a passos largos e cada um quer fundar sua própria crença, sua maneira de orar, se agarrar onde puder e criar seu próprio Deus. Pra alguns poucos, ele ainda é o Deus bíblico, onipotente, onipresente e onisciente. Para outros, é uma "energia", um "ente indefinido"... Para alguns, ele existe, mas não mata nem salva ninguém. Já ouvi dizer que ele apenas "influencia" na vida das pessoas para que elas sigam o caminho do bem, mas que o "livre-arbítrio" dado aos homens é que porá o ponto final. Bom... se assim for, posso brincar de Deus também, já que posso influenciar as pessoas para fazerem o bem e também gero e possuo energia. Ou seja, o Catolicismo está em queda e Deus, para grande parte das pessoas, ficou impotente e relativizado, porém não se deram conta disso. Sua definição é, a cada dia que passa, mais vaga, subjetiva, sem unidade e dotada de poderes medíocres.
A verdade é que a ciência causou uma cisão tal na religião que o que há, é um caminho sem volta. Cisão que tende a cada dia ser mais profunda e espessa. Como crer em Adão e Eva com o evolucionismo mais do que comprovado? Já ouvi por ai que "Adão e Eva são uma metáfora", que são um "sentido figurado", uma "representação". Talvez hoje essa reinterpretação seja aceita facilmente entre os jovens, mas não foi assim para a maioria de nossos antepassados que acreditaram nos dogmas cegamente.
Sim. É extremamente necessário questionar, desmistificar, rever e reformular. A sociedade é isso: dinamismo. E a ciência é essencialmente revisionista. Está sempre se desconstruindo e reformulando, abrindo espaço para novos conhecimentos, expandindo e revolucionando. Esta é a sua principal diferença, na ciência não há uma verdade absoluta. É uma busca incessante pelo saber e pelo bem-estar humano, sempre aprimorando-se.
Como tudo tem consequências, não devemos nos assustar se em um futuro próximo, com o percorrer desta jornada científica, percebermos que estamos sozinhos e que somos nós os responsáveis por tudo aqui nesta vida, de ruim e de bom, sem interferências ou influências, desde o início da civilização e por todo o resto adiante.